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A
una estrella
Meu
domínio é o do sonho, minha alegria é a do céu que a tormenta
obscurece, meu futuro é aquele que amanhece à luz do desespero.
Só tu saberás o segredo da minha predestinação. Só tu
saberás a extensão de tantas caminhadas, só tu conhecerás a casa
humilde em que morei. Quem saberia romper o sortilégio que me
cerca, ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.
Mas
não reflitas nunca o gesto que condena. Ai, este país é o da
eterna aridez! Se da altura a estrela não baixar o olhar ao
pântano, maior será a sua impiedade que o seu esplendor.
E
só tu Vésper, só tu aplacarás o meu desejo, só tu poderás
depositar, nesta carne crispada, o beijo que nas trevas dá ao
sono a serenidade do repouso.
Novas Poesias, 1944
Amanhecer
A
noite está dentro de mim, girando no meu sangue. Sinto
latejar na minha boca, as pupilas cegas da lua. Sinto as
estrelas, como dedos movendo a solidão em que caminho. Logo
o perfume da poesia sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam sôbre o corpo negro da
terra e a voz do vento distante e a voz das palmeiras
abertas em raios e a voz dos rios viajantes.
E
a noite está dentro de mim. Como um pássaro, meu sonho ergue
as asas no coração da sombra. Ouço a musica das fiôres que
tombam, o tropel das nuvens que passam e a minha voz que se
eleva como uma prece na planície solitária.
Então
sinto a noite fugindo de mim, sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar e as nuvens curvas que
enchem o céu como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.
Poesias,
1941
Velha
fortaleza
Vejo-te
dormindo no silêncio antigo e forte.
Ouço
as ondas que roçam tuas ilhargas de granito, e o vento que
desenlaça no espaço frio a memória guerreira dos teus dias idos.
Sinto
renovar-se em mim o desejo desta vida que sonhei. Ouço a voz
das madrugadas sôbre as rochas e o mar remoto que soluça
junto ao aço morto dos canhões...
E
vejo, ó fria sentinela, o teu vulto crescer na linha do
horizonte, como um estranho navio que ancorasse junto à
cidade descuidada, vazia de heroísmo e mocidade!
Poesias, 1941
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